vô, ele me disse que era uma coisa, mas ele não era nada daquilo.
O que esperar de gente que faz propaganda, filha? - dizia Seu Eusébio, aos ointenta e nove anos de pura lucidez. - Não tô falando da faculdade não, filha. Tô falando de vida. Porque veja só, a gente não é muita coisa não quando falamos pros outros, aliás, somos muito mais do que pensamos que somos, mas muito, muito menos daquilo que dizemos ser.
Não faça essa cara de boba não, menina! Você entendeu o que eu disse. Na minha época a gente tinha mais decoro, mas não só com os outros, com a gente mesmo. Eu aprendi que mentir era algo ruim simplesmente porque você se engana mais do que aos outros. Só que hoje isso nem existe mais, quiçá responsabilidade pela consequência pros outros da sua mentira.
Esse monte de furo na orelha, esse cabelo todo pintado, essas tatuagens todas. Posso ser careta, como você diz, menina, mas olhe, isso aí tudo é uma grande propaganda enganosa. Assim como tudo que se diz na primeira pessoa. Sabe, filha, a gente é muito mais do que a gente pensa que é. Somos muito mais maus do que pensamos, mais desatentos, mais infiéis, mas também somos a mais nas nossas qualidades.
O problema foi o sujeito que inventou a falsa modéstia, se é que ela não é uma coisa do homem mesmo. Menina, se você soubesse como a vida é mais fácil quando você se esforça pra ser honesto. Depois de um certo tempo você se acostuma e pára de mentir, porque percebe que viver mentindo é mais difícil.
Veja você, olhe-se no espelho; essa porcaria dessa tatuagem escrito não sei que lá em inglês aí. Não sei te dizer daqui a quanto tempo, podem ser vinte minutos ou vinte anos, isso vai virar uma baboseira; e quando você estiver enrugada que nem eu, aí sim quero ver você ostentar esse lixo. A nossa pele é uma coisa muito mais íntegra do que a gente mesmo. Nossa pele é honesta desde que a gente nasce.
O calafrio de medo, de ansiedade, o frio na barriga, as dores, a coceira, o suor, tudo isso é mais verdadeiro do que qualquer palavra, filha. Teu corpo é muito mais esperto do que você pelo simples fato de que ele fica sempre em silêncio. Palavras são muito difíceis, e, a bem da verdade, cada um entende o que quer. Na minha idade, eu nem ligo mais se o que eu falar incomoda ou não porque, salvo hoje, com você aqui, eu nunca falo nada, exceto uns bons dias, boas tardes, boas noites. Tem que ser educado, é ou não é?
Parece que tá todo mundo atrasado em alguma coisa. Tudo é feito com muita pressa e tem que sair perfeito, como se isso fosse possível. Quando eu tinha a sua idade, eu já trabalhava e uma das primeiras coisas que aprendi na enfermaria era que a gente tinha que fazer o máximo que fosse possível naquele dia de trabalho. A segunda coisa foi que nenhum de nós lá ia salvar o mundo, mas que a gente podia ajudar muita gente. Hoje isso não acontece, porque tá todo mundo tentando se salvar, como se não houvesse mais o dia de amanhã. Todo mundo apressado, sem sair do lugar.
Por essas e outras, eu fico quietinho aqui nessa praça tomando sol todo dia, vendo o mundo passar e pensando cá comigo que, a essa altura da vida, posso morrer sossegado.


ah! bom te ler, e muito bom isso chica. esse andar apressado e essas palavras vazias, que as pessoas jogam sem pensar, e tudo que ostentam e ah…
Comment by tati — August 20, 2009 @ 4:34 pm
vamos fugir?
Comment by .lp. — August 24, 2009 @ 3:52 am
ô moça, eu quero mais.
Comment by .lp. — October 14, 2009 @ 9:47 pm