December 8, 2009

tem sempre aquela coisa:

categoria: hermética.

Manda ver, vem ver como as coisas funcionam daqui de dentro! Ou o clássico em inglês "try walking in my shoes!"

-o problema é só um lado se importar, se bem que, no pé em que estamos, quem se importa?

 

 

[acho que a Carol vai gostar desse.]

 

 

[ou não.]

estava tudo ali, mas passou.

categoria: hermética.

Andava desleixada. Não porque acreditava que isso iria fazer alguma diferença no contexto geral, mas por pura preguiça. Também não era, como já começariam a atormentar os p$icólogos de plantão - ou mesmo apenas os fofoqueiros - que era por baixa auto-estima [no segundo caso, eles diriam baixa-estima, se sentindo autoridades no assunto e falando muita merda]. Apesar que, no caso dela, até a mãe, pai, irmão, tia, vó, papagaio e o hamister pensassem isso, e com boas chances de acerto.

Na verdade, era por puro conforto, preguiça, cansaço. Não achava isso ruim, aliás, no momento de alívio que dá aquela sensação de missão-cumprida, quando tudo acaba, bem, tudo não, as obrigações apenas, essa sensação era tida como boa. Ao menos, para ela era boa. Não estava se arrumando, se alimentando ou dormindo direito porque havia algo errado acontecendo, mas simplesmente porque não precisava fazer isso. Não naquele momento.

Claro que isso não são coisas que se pare pra pensar. Quer dizer, se mal se pára pra pensar nos tais "tempos modernos", quiçá lembrar das coisas. Ver problema é fácil. Essa foi a sua conclusão dos últimos meses. Não que a achasse mirabolante, até porque, ela sempre estivera ali, espreitando e esperando uma brecha para aparecer e se fazer luminosa na consciência. É fácil ver problemas, assim como é fácil se deixar prender, se deixar levar.

São sinônimos, se pensar metafisicamente, ou, até, metaforicamente, prender, se largar, problematizar, encanar, qualquer que seja a palavra escolhida, ela sempre vai te levar a alguma coisa que não a tal liberdade, seja de pensamento, ação, vontades… Talvez ela nem exista mais, em certos níveis, e ela achava que realmente não existia mais. Enfim, é fácil estar lá na merda, porque, basicamente, já se está nela desde o princípio.

Não que o mundo seja horrível, e que tudo seja um monte de lixo. Como diria o falecido comediante-soco-na-cara George Carlin: "the planet is fine, the people are fucked".  A coisa funciona mais ou menos assim, pensava: o mundo está aí, em sua maravilhosa neutralidade com a qual você pode fazer, ou melhor, pensar das coisas que lhe acontecem o que quiser, só que, é óbvio, todo mundo faz disso um lixo sem tamanho.

Porque? Porque é mais fácil. Santo insight do mês, e talvez o melhor dos últimos tempos. Para uma pessoa de quinze anos recém iniciada nas leituras de Proudhon, era de se esperar que na primeira página as coisas já estivessem todas pensadas, re-pensadas, revolucionadas dentro daquela psique idiótica que começava a se salvar, mas não, demorou, porque sempre demora, e porque, quando é muito rápido, é de se duvidar que seja verdade.

As mentiras são rápidas, mas ela ainda não havia chegado nessa parte. Ela estava na fase de ‘vou jogar fora toda essa palhaçada de livros que eu tenho aqui e que não me servem pra merda e nenhuma e começar a ler coisas de verdade e ouvir músicas que dizem ser psicodélicas e usar várias drogas só porque eu posso’. Claro que isso não funcionou, porque, afinal, os fenômenos de massa são mais rápidos, sedutores, bonitos, e isso numa cabecinha oca de quinze anos é muito importante, especialmente se ela é gorda, baixinha e cheia de espinhas como a garota em questão, do tipo que vai sempre ser escolhida pra jogar no gol não porque é boa, mas porque preenche.

Evidentemente, a coisa revolucionária, anarquista, marxista e junkie durou pouco. Três anos e cinco piercings depois, ela viu Crepúsculo no cinema e ficou apaixonada pelo vampiro, e foi tudo pro saco. Tudo mesmo, livro, piercing, discos, baseado, comida… ah sim, porque a bulimia veio de brinde.

Quarenta anos depois, ela, depois de uma redução de estômago, plásticas mil e sendo capaz de ingerir apenas o conteúdo de um copinho de café daqueles de plástico que se tem em sala de espera, ela chegou a uma conclusão: a gente só tem liberdade pra viver de forma confortável. Talvez o pensamento tivesse se estendido para algo melhor, não fosse o fato de que o massagista do spa entrou na sala e começou a fazer seu trabalho.

ah, faz tempo.

categoria: hermética.

Mas afinal, ainda estamos, todos, vivos, respirando, correndo, sobrevivendo e subvertendo tudo o que há de possível.

Em que? Em qualquer coisa, desde que possa ser diferente do que se é agora.

 

- porque sempre há outra maneira.

August 19, 2009

vô, ele me disse que era uma coisa, mas ele não era nada daquilo.

categoria: hermética.

O que esperar de gente que faz propaganda, filha? - dizia Seu Eusébio, aos ointenta e nove anos de pura lucidez. - Não tô falando da faculdade não, filha. Tô falando de vida. Porque veja só, a gente não é muita coisa não quando falamos pros outros, aliás, somos muito mais do que pensamos que somos, mas muito, muito menos daquilo que dizemos ser.

Não faça essa cara de boba não, menina! Você entendeu o que eu disse. Na minha época a gente tinha mais decoro, mas não só com os outros, com a gente mesmo. Eu aprendi que mentir era algo ruim simplesmente porque você se engana mais do que aos outros. Só que hoje isso nem existe mais, quiçá responsabilidade pela consequência pros outros da sua mentira.

Esse monte de furo na orelha, esse cabelo todo pintado, essas tatuagens todas. Posso ser careta, como você diz, menina, mas olhe, isso aí tudo é uma grande propaganda enganosa. Assim como tudo que se diz na primeira pessoa. Sabe, filha, a gente é muito mais do que a gente pensa que é. Somos muito mais maus do que pensamos, mais desatentos, mais infiéis, mas também somos a mais nas nossas qualidades.

O problema foi o sujeito que inventou a falsa modéstia, se é que ela não é uma coisa do homem mesmo. Menina, se você soubesse como a vida é mais fácil quando você se esforça pra ser honesto. Depois de um certo tempo você se acostuma e pára de mentir, porque percebe que viver mentindo é mais difícil.

Veja você, olhe-se no espelho; essa porcaria dessa tatuagem escrito não sei que lá em inglês aí. Não sei te dizer daqui a quanto tempo, podem ser vinte minutos ou vinte anos, isso vai virar uma baboseira; e quando você estiver enrugada que nem eu, aí sim quero ver você ostentar esse lixo. A nossa pele é uma coisa muito mais íntegra do que a gente mesmo. Nossa pele é honesta desde que a gente nasce.

O calafrio de medo, de ansiedade, o frio na barriga, as dores, a coceira, o suor, tudo isso é mais verdadeiro do que qualquer palavra, filha. Teu corpo é muito mais esperto do que você pelo simples fato de que ele fica sempre em silêncio. Palavras são muito difíceis, e, a bem da verdade, cada um entende o que quer. Na minha idade, eu nem ligo mais se o que eu falar incomoda ou não porque, salvo hoje, com você aqui, eu nunca falo nada, exceto uns bons dias, boas tardes, boas noites. Tem que ser educado, é ou não é?

Parece que tá todo mundo atrasado em alguma coisa. Tudo é feito com muita pressa e tem que sair perfeito, como se isso fosse possível. Quando eu tinha a sua idade, eu já trabalhava e uma das primeiras coisas que aprendi na enfermaria era que a gente tinha que fazer o máximo que fosse possível naquele dia de trabalho. A segunda coisa foi que nenhum de nós lá ia salvar o mundo, mas que a gente podia ajudar muita gente. Hoje isso não acontece, porque tá todo mundo tentando se salvar, como se não houvesse mais o dia de amanhã. Todo mundo apressado, sem sair do lugar.

Por essas e outras, eu fico quietinho aqui nessa praça tomando sol todo dia, vendo o mundo passar e pensando cá comigo que, a essa altura da vida, posso morrer sossegado.

July 21, 2009

“o rei do inverno”, de bernard cornwell

-Não seja estúpido, Derfel - reagiu Merlin impaciente. - Os druidas não têm permissão de escrever nada, é contra as regras. Você sabe disso! Assim que você escreve alguma coisa ela se torna fixa. Vira dogma. As pessoas passam a discutir a respeito, ficam autoritárias, referem-se aos textos, produzem manuscritos, discutem mais e logo estão matando umas às outras. Se você nunca escreve nada, ninguém sabe exatamente o que disse, de modo que sempre pode mudar. Será que tenho que explicar tudo?

June 23, 2009

eu não gosto de passarinhos quando estou tentando dormir de manhã e eles ficam lá piando na minha janela.

categoria: raposa., hermética.

Grupos. Nunca fui de ficar muito tempo neles. Há quem precise deles pra viver, e há quem sinta muita falta de ter um grupo de amigos que se vêem com muita freqüência. E tem sorte aqueles que conseguem conviver intensamente sem [muitas] discussões.

Quanto a mim, eu passo. Francamente falando, eu sou uma pessoa oscilante. Isso signfica que eu preciso de coisas novas, porque as antigas enjoam. Não, não é que eu enjôo das pessoas, mas eu enjôo da rotina que se mantém com elas.

Na verdade, eu sempre tive muitos grupos. Nunca me vi tão sozinha quanto eu me pretendia, mesmo quando a minha intenção era, ao chegar num lugar novo, não manter muito contato com ninguém. Fato é que eles não permaneceram no tempo.

Nada permanece, porque eles haveriam de se manter? Acho que as pessoas se esforçam demais para imortalizar a si e àquilo que gostam, seus valores, essas coisas. Nada vai durar além da sua própria existência, gente.

Quer dizer, talvez o plástico.

 

June 22, 2009

sensação de morte iminente.

categoria: hermética.

Tem gente que vive assim.

 

May 13, 2009

observação antropológica de um idiota.

Vislumbre a criatura. Devagar, demoradamente, pare e contemple-a em seu habitat natural. Ali, onde se sente à vontade, é que ela se expressa pra valer. Perceba o andar desengonçado, a incoerência das pernas. Está lá, entre os outros tidos como iguais por classificação arbitrária. Note os pelos no rosto, suponha que seja um macho; nenhuma fêmea seria tão descuidada a ponto de estar ali suja. Se for macho, os pelos estão ralos ainda, na mesma medida que o cabelo.

Contemple seus hábitos alimentares: o cigarro é sua proteína, o café é sua heroína, e volta e meia tem algo borrachudo entre os dentes… cheira a queijo, mas será que tem o gosto? Hábitos, enfim. Veja-a em volta das fêmeas, como se sente tranquila, a criatura. Mãos, pés, tudo relaxado, menos, evidentemente, o órgao reprodutor. Rijo por sob as calças, tanto quanto os olhos da criatura no próximo alvo.

A criatura caça. À primeira vista, a fêmea sente a criatura como mais velha. Note como a criatura consegue se mostrar madura, note a vaga idéia pacífica que passa, que paz, sabedoria e sabor que pretende extrair de tudo, de modo a feromonizar seu diálogo, seu papo, seu pinto, é claro, em primeiro lugar.

Mas a criatura sabe jogar na conquista do coito, digo, da fêmea que deseja. Ela traz o ar de quem não mais é verde, fruta madura, fruta sedenta; mas aparenta fragilidade. Um olhar descuidado pode fazer com que você, observador, queira cuidar dessa criatura. Vai pensar nela como frágil, como indefesa. Vai pensar nela como alquém que precisa de você, que te quer bem. De fato te quer, bem de quatro. 

A criatura não cuida, não sabe, só sabe dizer um mundo de verdades. Serão verdades? Observe, você, que está de longe, como só saem discursos razoáveis. Sim, repletos de razão, insensatez jamais, apesar da criatura gostar de algumas apologias. Veja como ele tenta adocicar o cru[el], veja como a criatura mantém a consciência limpa sempre, através de um repertório de verdades que não podem ser contestadas.

Não porque sejam verdadeiras, mas porque o discurso fálico já aprisionou a fêmea e agora ela chupa a porra da razão. Em breve, engolirá a da criatura com gosto, e depois, será cuspida [a fêmea, não a porra] pela criatura num piscar de olhos.

Veja você, observador, como não age com movimentos pretensamente delicados. Veja você como isso te faz tão macho!

 

 

May 12, 2009

hoje.

categoria: hermética.

De que forma começar um post sem usar clichês? Eu poderia dizer que foi um dia cheio, um dia atípico, um dia daqueles… mas fato é que só porque estou escrevendo próximo do "fim do dia", isso não quer dizer que a impressão seja de agora. Acho que acordei com ela, ou ela acordou comigo. Acho que foi como se eu estivesse passando por muita coisa em espaços de microssegundos. "Muita informação", se quiserem, mas não foi exatamente muita, foi uma.

Mas mesmo antes dessa informação eu já estava com aquela coisa na pele, ou que fica atrás dos olhos, que só sai do esconderijo quando a gente está pensando em outra coisa, e quando nos damos conta que está ali, some de novo. Talvez fosse um pressentimento de que uma sensação forte estava para surgir. Mas também, pode não ser nada. Estava mais pra um sentimento de fragilidade, sem causa, apesar de que, se eu fosse esmiuçar a vida, eu poderia achar várias - mas todo mundo que procura acha, afinal; isso não significa nada. Seja o que for, estava ali e deu lugar, ou arrumou a sala para, outra coisa.

Só sei que eu recebi a informação. E ela me passou uma sensação diferente, mas ao mesmo tempo familiar. Familiar porque narcísica, diferente porque… porque alheia, porque nova, porque causou estranhamento. Vai saber. Mexeu com algo que estava quieto, isso é fato. O que estava quieto já é outro mistério, tanto quanto o motivo da diferença acima. Na verdade, a gente sempre sabe dos nossos mistérios, e o que sabemos é que não há nenhum: só existem coisas que preferimos deixar como desconhecidas, atribuir-lhes esse sentido, porque são dolorosamente verdadeiras, ou porque não conseguimos extrair felicidade do que elas têm a nos dizer.

Surgiu isso tudo aí. Sensação de ter sido um espaço, um intervalo, aquele tempo de cinco minutos sem qualquer contato com o material para que você possa recuperar a atenção quando voltar a ele. Sabem? Tipo isso, essa técnica para não perder o ritmo de produção. Me senti assim. Não porque quem fez isso de mim, se fez - já que é uma impressão subjetiva, nada há que se fazer senão manter no nível do incerto - fez por "mal" ou porque me "desmereceu". Essa é a parte narcísica já conhecida de longa data, se bem que não é de modo algum agradável sentir-se colocada na posição de objeto. Mas porque é como a nossa atenção ao material: quando passa o intervalo, você volta do ponto onde parou. Exatamente, arrisco eu, do ponto onde parou.

Não é triste, pensar que não se fez nada, que não se acrescentou nada, que não se construiu nada?

Mas talvez seja isso: não há sentido, só há o nada, esse nada cru e avassaladoramente real. Talvez as pessoas não se encontrem, eu poderia pensar, mas seria amargo demais: talvez aquelas duas pessoas - uma delas, eu - não tenham se encontrado; isso sim real, isso sim plausível. Por que? Eu não sei dar a resposta, talvez o Outro saiba. 

Ou não.

E será que eu quero saber? 

May 6, 2009

alien.

E era boa aquela sensação de familiaridade. Do cheiro daquelas roupas, que entrava pelo nariz e remetia à confort, omo e secar à sombra porque o teto era de zinco. Bom acordar de manhã, dar comida para o gato, sair, encontrar a mãe, e depois voltar e ter ali, exatamente ali, em aproximadamente dois metros quadrados de piso de madeira, teto de madeira, divã e colchão no chão, guarda-roupas e mesinha, todo um universo.

Paralelo, talvez, ou não, mas um universo. Paredes rabiscadas e sujas de algo que saiu do teto, num dia que choveu bastante. Tinham vários ratos no sótão quando chegamos ali, mas agora eles silenciaram. Não tem mais "qüí-qüí-qüí" incessante pra te acordar de manhã, e já até temos o costume de ignorar as galinhas da vizinha quando botam ovos logo cedo.

Quero mais, mas eu gosto. 

May 5, 2009

dá-me-dá-me-dá-me-dá.

categoria: hermética.

- É que as pessoas falam demais, daí eu não consigo pensar!

"Como assim?"

- Eu preciso falar, entende, falar que tá doendo, falar que tá legal, falar, mas… mas se tá todo mundo falando, ninguém escuta!

"Mas você também não está escutando quem está falando, não é?"

- Mas o silêncio é muito doído, e se todo mundo ficar em silêncio, quem é que vai falar?

"Você. Os seus pensamentos vão falar"

- Mas aí ninguém vai ouvir!

"Que interminável! Você faz um ciclo fechadíssimo sobre a sua fala, mas pasme, é esse ciclo que te faz calar! Ou chorar, e até pior, choramingar."

(Silêncio)

April 16, 2009

eu lhe imploro.

categoria: noise., hermética.
com a mesma dor de todos os dias
ela levanta e sorri amarelo
para ouvintes cegos

e se você lembrar,
salve mais um por hoje
só por hoje

e se você puder,
deixe de lado só um
pelo menos um

só por hoje, pelo menos um

me deram um nome, me alienaram de mim.
me deram um nome, me alienaram de mim.
me deram um nome, me alienaram de mim.
me deram um nome, me alienaram de mim.

e se você lembrar,
salve mais um por hoje
só por hoje

e se você puder,
deixe de lado só um
pelo menos um

só por hoje, pelo menos um

April 6, 2009

2 + 2 = ?

categoria: hermética.

É isso aí, "dois patos na lagoa", como algum idoso da minha família diria entre risos. A comemoração é só quarta feira, porque eu tenho prova.

Basicamente, é quase igual ontem - tirando o fato, é claro, de que ontem eu não estava com saudade.

April 1, 2009

e eu sei lá?

categoria: hermética.

Confundimos causa e finalidade. Há quem acredite em livre-arbítrio. A vontade não é a causa, é a finalidade da ação, no fundo, qual é a causa de tudo que queremos?

E afinal, será que alguém faz de fato o que quer?

March 5, 2009

pois é.

categoria: hermética.
Triste que a sinceridade não tenha mais tanto valor. As aparências enganam, e ganham, ultimamente.

February 20, 2009

parting ways.

Ultimamente, é quase como enlouquecer, mas de propósito. Para ver no que dá. Para ver até onde minha dita lucidez me leva, se é que ela se move. Para ver o que acontece quando você existe. E só existe, e existindo, quem continua por aqui. Sem pedir permissão, ou favores, sem charmes, sem floreios, sem foco.

Monet, visto de perto, eram só borrões de tinta. O que acontece comigo nos últimos tempos é que não tenho me esforçado para parecer bonita de longe.

estirada na calçada.

categoria: hermética.

Eventualmente as coisas atropelam a gente. Daquele jeito meio desgovernado e meio displicente, o Mundo se impõe. Real, cheio de libido. Cada dia chego mais perto de pensar que as coisas não são bonitas, nem feias, nem nos salvam, nem nada disso.

As coisas são o que dizem pra gente e, se tivermos um pouco de fibra pra ir além dos discursos, as coisas são o que a gente faz delas. Continua comigo a idéia de Hegel: não existe sujeito sem objeto.

February 5, 2009

sr. utopia.

Nunca teve lá muita paciência para meio-tom: ou sussurrava amável, ou falava alto, quando não gritava, sustentando fortemente suas idéias. Nunca abaixou a cabeça para aquilo que não tinha explicação - porque as coisas automatizadas raramente têm uma explicação, e tendem a fazer todos dóceis. Era impaciente, mas não era rude. Não em intenção, as interpretações, porém, variavam das pessoas ao redor. Raramente se importou, mas quando o fez, fez-se notar.

Sentia-se sempre vítima de uma inquietação inerente. Não gostava de dizer às pessoas apenas o que elas queriam ouvir, então passou muito tempo de vida em silêncio. Quando lhe perguntavam algo, respondia na medida em que permitiam - passava muito tempo analisando a pergunta, quando não era necessária uma resposta imediata.

Não gostava de reclamação à toa, acreditava que tudo deveria ser pensado e repensado antes de ser reclamado, criticado, ou afins. Porque pressupôs a vida inteira que algo do que se reclama deve, de alguma forma, machucar, incomodar, trazer alguma forma de sofrimento que precisa ser cessado. Neste caso, é justo - pensava. Mas jamais que reclamassem do calor, do chefe, do horário - tudo o que era de escolha do ser, era também sua responsabilidade. Achava tremendamente infantil que o aquecimento global, Deus, ou qualquer entidade de tal escalão levassem a culpa porque a pessoa não admitia suas escolhas.

Sua vida foi sempre solitária, mas nunca se arrependeu: só viveu de verdades.

 

 

 

January 7, 2009

perdão, newton!

Ela estava ali, despejando-me verdades e eu grudado à parede como se todo o centro gravitacional tivesse se movimentado quarenta e cinco graus sem que eu percebesse. Então, grudado à parede, não havia muito o que eu pudesse fazer - vejam bem, além de eu estar grudado, ainda tinha o fato de que, por causa da maldita rotação, eu não conseguia simplesmente manter minha cabeça abaixada, como fazem aqueles que recebem verdades doídas. Não, eu era forçosamente altivo, e, de quebra, com a ridícula tensão em manter os braços no antigo chão, como se a gravidade estivesse excelente, nunca melhor.

Agora imaginem a ridicularidade da cena: você está preso por uma gravidade invisível, que o faz não apenas incapaz de se esconder das coisas que mais detesta, mas que também tenciona todo o seu corpo - acabo de me lembrar que o esforço dos braços também se aplicava às pernas - apenas para ser esquartejado por frases que te dizem total respeito e que você morreria, e provavelmente também mataria, para não ouvir. Nunca. Em nenhum momento da sua vida. Nem em sonho. 

Ok, talvez num sonho em que, seguidamente, ocorresse um assassinato digno de sensacionalismo televisivo. Mas só neste caso.

 

 

December 12, 2008

entre o nada e o lugar algum.

A gente se perde tanto em megalomanias inúteis que acaba sempre não vivendo. Ou perdendo o que está lá para se viver. Eu nunca me canso da frase do Doors: AWAKE, SHAKE DREAMS FROM YOUR HAIR.

De nada adianta mostrar para o mundo as suas vicissitudes, quando você mal acredita nelas. Essa vidinha mansa, calma, devagar - insuportavelmente devagar - e regada de inveja me causa sensações diversas. A primeira é ódio, a segunda é desprezo, a terceira é pena e a última é indiferença. E eu detesto chegar à última - não há como voltar a sentir algo, uma vez que já se anestesiou por completo.

Sim, porque é uma forma de anestesia, sabe. Você vai ficando tão cansada, tão de saco cheio, tão-tão, que num determinado momento a pele parece que expurga tudo - e não sente mais nada. Pensando bem, talvez não seja anestesia não, talvez seja apenas imunidade.

E não há nada mais desumano do que se imunizar contra teu próprio sangue, ou contra aqueles que você considerava entre os teus poucos e bons.

No fundo, isso me enxe de preguiça.


Bea Rodrigues_______________

Segundo um amigo, eu pareço o Charlie Brown tentando soar sério. Mas eu gosto mais do Woodstock.

Grandes Outros__________

!
rewind
ilusões
lataria trinta e três
chuva de cicuta
embrulho celofane
apple before sunset
usina
mustachi
grande tratado
blog da escrita
o subterráqueo
em escarro na boca do palhaço
uma dama não comenta
conteúdo manifesto
sem espaço no meu tempo
cadeira vazia


Cisões__________________

  • bea, como você reclama!
  • como usar em cinco passos fáceis…
  • cotidiano.
  • hermética.
  • humorzinho.
  • I’d like to thank the academy…
  • latinice.
  • noise.
  • pára-quedas.
  • raposa.


  • Busca_______________________




    Arquivos_____________________

  • December 2009
  • November 2009
  • October 2009
  • August 2009
  • July 2009
  • June 2009
  • May 2009
  • April 2009
  • March 2009
  • February 2009
  • January 2009
  • December 2008
  • November 2008
  • October 2008
  • September 2008
  • August 2008
  • July 2008
  • June 2008
  • May 2008
  • April 2008
  • March 2008
  • February 2008
  • January 2008
  • December 2007
  • November 2007
  • October 2007
  • September 2007
  • August 2007
  • July 2007



  • December 2009
    M T W T F S S
    « Nov    
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28293031  

    Memória de Curto Prazo___________

    faz tempo que...
    clube da luta...
    hora de voltar
    tem sempre aquela...
    estava tudo ali,...
    ah, faz tempo.
    ai, que preguiça!
    tô falando que a...
    devo dizer que eu...
    já que,
    metafísica do...
    vô, ele me disse...
    "o rei do...
    eu não gosto de...
    posts curtinhos.
    e foi aí que me...
    sensação de...
    inaugurando a...
    observação...
    hoje.

    Etc._________________________

    login
    register


    Meta_________________________

    RSS .92
    RDF 1.0
    RSS 2.0
    Atom
    Comments RSS 2.0
    Valid XHTML