May 6, 2009
E era boa aquela sensação de familiaridade. Do cheiro daquelas roupas, que entrava pelo nariz e remetia à confort, omo e secar à sombra porque o teto era de zinco. Bom acordar de manhã, dar comida para o gato, sair, encontrar a mãe, e depois voltar e ter ali, exatamente ali, em aproximadamente dois metros quadrados de piso de madeira, teto de madeira, divã e colchão no chão, guarda-roupas e mesinha, todo um universo.
Paralelo, talvez, ou não, mas um universo. Paredes rabiscadas e sujas de algo que saiu do teto, num dia que choveu bastante. Tinham vários ratos no sótão quando chegamos ali, mas agora eles silenciaram. Não tem mais "qüí-qüí-qüí" incessante pra te acordar de manhã, e já até temos o costume de ignorar as galinhas da vizinha quando botam ovos logo cedo.
Quero mais, mas eu gosto.
February 20, 2009
Eu gostaria de fazer um agradecimento "público" às minhas duas melhores amigas: Teté e Lily.
January 6, 2009
Ao contrário do provável, não, eu não vou enjoar, nem me cansar, nem desejar que desapareça. Existem sutis diferenças entre brisas quentes e ondas de calor: as primeiras são perfeitamente mundanas, podem ser aquelas impressões que sentimos ao ver uma cena da janela do ônibus, ou um sentimento raivoso por algum desentendimento - quem sabe, até uma pequena contemplação da beleza alheia, seja em quem for. Mas acabam rápido, deixando aquela pequena sensação de falso conforto.
Ondas de calor são coisas inabaláveis. "Como o mar, que sempre retorna", elas não te afogam nem te deixam congelar - são perfeitamente como dizem ser: sempre presentes, sempre necessárias, sempre belas, em seus contornos azuis com leves traços dourados e eventualmente, peixes de olhos grandes.
Nenhuma das duas podem ser descartadas, apesar de eu constantemente evitar qualquer sensação de conforto neste mundo. Por que? Simples: ele não existe. Uma alma inquieta será, eternamente, inquieta, e qualquer que seja a saída [nem precisa ser essa porcariada burguesa que nós fazemos uso] irá apenas retardar o efeito.
Que efeito? Respondam vocês.
November 11, 2008
E quantas vezes eu não rabisquei paredes, corri em círculos, ferí-me aos poucos, em silêncio, e segurei tuas mãos, só para que olhasse para mim?
Na verdade, é bastante súbito, se for pensar bem. É um aperto de repente, um estalo, ou até aquela dor de quando dormimos mal e viramos o pescoço de mal jeito, que repuxa tudo, dói e do nada, tão rápida quanto veio, passa.
E aí a gente se apega. E apega, cada vez mais no lado de dentro, as coisas rodopiam em espirais intermináveis. Borboletas, sim, talvez, mas na maior parte do tempo, são apenas luzes e cores diversas, como num prisma, ou num cristal quando bate o sol - mas será que isso não é a mesma coisa? Se bem que eu prefiro diamantes: indestrutíveis.
Mas é uma revolução tão silenciosa. Vibrante, como as freqüências gravíssimas, que a gente não ouve, mas que mexem com tudo. Silenciosa, discreta, mas tão minha, tão… deliciosamente minha. Ou, melhor dizendo: meu, porque é um coração. Um coração só.
November 6, 2008
O coração é livre, mas o sangue tem dono.
November 3, 2008
Mal cheguei, já estava atrasada. Cinco da tarde e eu nem fiz nada, nem li, nem escrevi. Meu almoço saiu às três. Terminei de comer às quatro. Seis horas vou sair, e nem tirei as coisas da mala.
Não sei porque, mas me sinto bem assim, de pernas pro ar.
September 23, 2008
O peso do que pensamos não tem palavras; o ar que respiramos tampouco é líqüido, mas bebemos.
Sentada nos jardins da faculdade, ela tinha olhos de melancolia. Com seus pensamentos vagando, reparou que se sentava no mesmo banco desde que entrara, três anos atrás, mas sempre sozinha. Nunca sentava ali acompanhada - era uma das várias tentativas de preservar-se. Arrumou toscamente os cabelos e se encolheu ao vento frio, continuando com o semblante melancólico; os óculos de sol não disfarçaram muito, mas ao menos ajudaram na parte da luminosidade.
Estava ensolarado. Não dava nem para argumentar que a culpa era dos dias cinza. Estava sol e ventava muito, e, estranho, só tinha coisas boas a lembrar de vento, e de sol, mas continuava ali, a fitar as pedrinhas redondas do chão ou o balanço das árvores. Se não estivesse tão frio, ao menos estaria se sentindo mais confortável.
Deitou-se, gelando as costas no banco de concreto. Ela sabia que a mandariam levantar em breve, mas resolveu aproveitar os poucos momentos que tinha ali. Não entendia o motivo de sua melancolia, muito menos se deveria, e foi em meio a esses pensamentos que adormeceu. Sonhou com a cidade natal e com o que estava a lhe esperar lá. Sonho de saudade, pensou logo ao acordar, e ficou contente que seus primeiros dez segundos pós-sono tenham sido povoados por boas lembranças, e daquelas que mais estimava nos últimos tempos.
Porém, logo voltou à fria realidade da capital; com todo o ar de fracasso que se arrastava por entre as plantas e povoava sua mente. Como era orgulhosa, como relutava em admitir que nem tudo estava a seu alcance. Sentia-se como Narciso, quando, na verdade, desejava Ícaro.
August 15, 2008
Acho que eu passaria o resto dos meus dias escutando essa música…
August 9, 2008
"Can you feel this world with your heart, and not your brain?"
August 7, 2008
Queria conhecer tuas peculiaridades. Teu jeito de escrever, teu emprego de pronomes, mesóclises, ênclises, teus maneirismos. Queria um olhar a ser lido em segundos, saber como são esses teus gestos em todas as situações possíveis. Como será ao acordar, ao dormir, ao me observar chegando, saindo, ao final de uma noite incrível, de uma ruim, o brilho dos teus olhos e o calor da tua pele?
Queria conhecer todas as variações do teu cheiro. Da mais sutil à mais próxima do gozo, todas. As nuances do teu cabelo, o seu caminhar, se é ritmado, se é cansado, se é, se não é, se inércia, se é vontade. Quero conhecer as diferentes intensidades das tuas volições. O que te move, o que te paraliza. Queria ler uma carta de amor tua, a alguém, e identificar nela teus desejos. Ou ouvir-te magoar outrém, ou suplicar perdão. Quero saber com que agilidade articula teus pensamentos em palavras, teus medos em gestos, teus traumas em defesas.
Quero tanto, quero-te tanto, que nem sei por onde começar.
August 6, 2008
Escreveu quase três páginas, e com esmero. Não queria erros de português, nem letra feia. Caprichou. Afinal, era o seu desjejum com a correspondência, depois de quase dois anos. Quase não, dois. A carta ficou pronta em menos de uma hora; não sabia se era por falta do que dizer, - sempre se achara sem assunto - ou se, pela ansiedade, devorara as linhas. Fosse o que fosse, estava pronta. Dobrou as folhas ao meio, faltava então o envelope, a ser comprado no dia seguinte, pois era noite, quase madrugada.
Foi o que fez, na papelaria da faculdade. Perguntou à amiga onde era o correio mais próximo, ao que ela respondeu: "sabe a rua da minha casa? então, desce, vira a direita, quando estiver quase chegando na república, é lá, de esquina, praticamente." Aquele dia, porém, ainda não enviou. Faltavam as fotos, e elas não tinham sido escolhidas ainda. O fez durante a noite, e levou-as ao laboratório, recebendo-as uma hora depois, correndo aos correios para dar tempo de mandar.
- Quando chega, moça? - perguntou ela ao pagar pelo envio.
- Pra lá? Três dias úteis.
Agora, faça as contas.
August 3, 2008
"I choose not the suffocating anesthetic of the suburbs, but the violent jolt of the Capital, that is my choice." [Virginia Woolf]
Incríveis - eu diria sobre as últimas duas semanas, se alguém me perguntasse, mas eu bem sei que me canso fácil de tudo e que preciso de movimento.
Eu sempre faço um post de despedida - o que, se pensarmos bem, é uma tolice, porque amanhã eu já terei internet para postar algo se eu quiser - e desta vez eu não sei o que dizer. Não sei mesmo.
Então fica aí um nada - a Virgínia já disse tudo por mim.
July 28, 2008
Fechou a porta do quarto em silêncio para não o acordar; não havia necessidade de ser acompanhada até a saída - ela já conhecia aquele trajeto muito bem. Parou à escrivaninha, contemplando o peixinho vermelho no aquário, e lhe disse algumas palavras de despedida, mesmo sabendo que, dentro daquela água toda, ele não iria sequer ouvir [quem dirá entender].
Em seguida, começou a juntar suas coisas. Colocou seus anéis, brincos, e jogou os outros pertences desleixadamente na mochila. Decidiu que pegaria de volta os empréstimos depois, não queria carregar peso no retorno à casa, aliás, o intento de sair dali era justamente o de tirar pesos das costas.
Conforme descia as escadas do prédio, sentia-se cada vez menos densa, como se flutuasse. Quando chegou à rua, já planava alto, e desviava de nuvens.
July 18, 2008
Assim como hoje eu vejo com bons olhos a antiga boa-hora [02:51am], pandas, olhos verdes, clube da luta, serial killers, o MASP e hipopótamos de pelúcia; eventualmente também o número 17, as maçãs e os monstros não me trarão nada além de um vago sorriso de carinho.
Que venham os novos ventos.
July 1, 2008
- Eu me lembro de você sentada num banco de praça, num dia de frio, com um vestido que não esquentava nada; mas sorrindo. Você lembra desse dia? Foi vinho na praça, aquele dia.
- Acho que sim. Meu cabelo estava azul naquela época?
- É! Exatamente. Você olhava pra mim, e sorria, de canto. Como se quisesse se esconder. Desde então, me tornei um apreciador de sorrisos tímidos.
- Mas são lembranças vagas. Tudo era mais fácil naquela época. Tínhamos o vinho ruim, as praças, aqueles nossos amigos; tínhamos escudos por todos os lados. Era tudo muito novo.
Fizeram silêncio. Por alguns momentos, não houve o que dizer, e ficaram a observar da sacada do prédio o movimento da rua, que, na realidade, não era muita coisa, só uns eventuais carros. As cidades do interior realmente ficam paradas aos domingos.
- Eu me lembro de você assistindo a minha banda. Você ficava parado, num canto, encostado à parede. Em um ou dois, você tirou fotos. E eu nunca vi essas fotos. Agora até a banda acabou, e eu ainda não as conheço. Puta merda, cara, até eu e você acabamos e eu não as vi!
- Que inferno, né, meu. Nada sobreviveu daquela época… nem nós. Que bosta. Eu não achava que isso fosse acontecer.
Ela deu um gole da garrafa de vinho, ele deu outro. Por um momento, na passagem da garrafa, as mãos se encostaram. Calafrios.
- Acho que tudo se cansa, né? Pelo menos, tudo parece se cansar. Eu te achava o cara mais lindo do universo, e hoje eu só consigo ver essas olheiras. Acontece. Nos cansamos.
- Não te chateia?
- Claro que chateia.
- Então como é que você pode lidar assim, com tanta casualidade?
- Ah, meu… sei lá. Não tenho mais forças pra ficar triste por você, nossas últimas brigas consumiram-nas, todas; não dá pra reverter a situação, então não tem porque ficar triste. Quer dizer, ter tem, mas não consigo. Esse final só me provou que as coisas realmente acabam.
Mais goles de vinho vieram, mais observações do movimento da rua; silêncio, minutos de silêncio, era quase luto, quase funério.
- Espera aí! Você estava falando do meu vestido… no way que você tentou trazer à tona o dia que nos conhecemos! Cacete… e pensar que sequer falei contigo aquele dia. Só dei um "oi" emburrado.
- Ah, é… foi isso sim. Eu lembro desse "oi". O "oi" mais "tchau" que eu já recebi. Faz sete anos, meu! Sete anos. E em um e meio deste tempo você simplesmente sumiu.
- É isso que eu faço, sumir. Nós perdemos um universo gigantesco quando a república se desfez. Virou todo mundo inimigo naquela casa, e nós fomos entrando no jogo deles. Eu precisei mudar de cidade, de nome, de curso, de tudo. Mudei-me de mim, porque não aguentava viver com aquelas memórias, com a sua falta, ah. Foi um sonho de anos que foi abaixo com a demolição daquela casa. E eu nem sei o que se deu de todos eles…
Mal terminou a frase e começou a acender um cigarro, mas ventava muito, o que tornou tudo difícil. Só conseguiu quando ele tapou o vento com uma das mãos. Os olhares se cruzaram, ela sorriu. Ele também. Sorrisos tímidos.
- Eu senti sua falta, pequena. Será mesmo… - Ela o interrompeu, colocando a mão sobre seus lábios.
- Não cogite. Você sabe no que isso acaba. Eu também senti sua falta. Eu sinto sua falta. Mas vai acontecer tudo de novo, eu vou me irritar com as suas manias, você vai se irritar com as minhas oscilações de humor… as mesmas brigas, de novo.
Escapou uma lágrima, ela enxugou.
- Mas… e enquanto não chegar a esse ponto? Não vai ser bom? E se a gente tentasse não deixar chegar a esse ponto?
Eles se encararam durante poucos minutos, mas as almas sentiram como anos.
- Tudo bem.
Ambos sorriram. Deram as mãos, e entraram na casa, fechando a sacada e deixando o vento frio e a neve do lado de fora.
Na manhã seguinte, porém, ele acordou numa cama vazia. Olhou em volta, não havia quase nada na casa, a não ser uns restos de comida, roupas velhas e um bilhete, que dizia:
"É preciso que deixemos aquilo que já morreu descansar em paz. Por favor, não me procure mais, pois você é o único que, apesar de todos os meus disfarces, conseguiria me achar."
June 29, 2008
- Então o que é isso a mais que me pede?
- Você.
- Como, eu? Como é possível que me peça ainda mais, meu coração não basta?
- Ele é só uma parte. Quero tudo, quero até o que eu jamais iria querer.
- Isso já é algo que não posso te dar.
- Não pode, mas quer.
No silêncio, tudo se misturava. Ambos já confundiam aquilo que disseram e aquilo que lhes fora dito. Não havia distinção, falavam a mesma língua: o velar.
June 17, 2008
Bea Rodrigues* shoot straight for my heart. diz: alegre, sim, alegria de alívio não se chama alegria, se chama alívio!
Matheus diz: alegria mesmo quando está fodido não se chama alegria, se chama desespero.
Matheus diz: tá valendo até frejat aqui, o louco.
June 16, 2008
É interessante que, passada a parte do desespero, mas ainda mantendo-se a lucidez sobre tudo o que acontece a si mesmo, a sensação é que não se tem como impedir o fluxo de pensamento. Ele ressoa, e ressoa, infindável, pela minha cabeça. E eu não sei onde eles vão me levar.
Finalmente, voltou o senso das mil possibilidades.
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