June 23, 2009
Grupos. Nunca fui de ficar muito tempo neles. Há quem precise deles pra viver, e há quem sinta muita falta de ter um grupo de amigos que se vêem com muita freqüência. E tem sorte aqueles que conseguem conviver intensamente sem [muitas] discussões.
Quanto a mim, eu passo. Francamente falando, eu sou uma pessoa oscilante. Isso signfica que eu preciso de coisas novas, porque as antigas enjoam. Não, não é que eu enjôo das pessoas, mas eu enjôo da rotina que se mantém com elas.
Na verdade, eu sempre tive muitos grupos. Nunca me vi tão sozinha quanto eu me pretendia, mesmo quando a minha intenção era, ao chegar num lugar novo, não manter muito contato com ninguém. Fato é que eles não permaneceram no tempo.
Nada permanece, porque eles haveriam de se manter? Acho que as pessoas se esforçam demais para imortalizar a si e àquilo que gostam, seus valores, essas coisas. Nada vai durar além da sua própria existência, gente.
Quer dizer, talvez o plástico.
May 6, 2009
E era boa aquela sensação de familiaridade. Do cheiro daquelas roupas, que entrava pelo nariz e remetia à confort, omo e secar à sombra porque o teto era de zinco. Bom acordar de manhã, dar comida para o gato, sair, encontrar a mãe, e depois voltar e ter ali, exatamente ali, em aproximadamente dois metros quadrados de piso de madeira, teto de madeira, divã e colchão no chão, guarda-roupas e mesinha, todo um universo.
Paralelo, talvez, ou não, mas um universo. Paredes rabiscadas e sujas de algo que saiu do teto, num dia que choveu bastante. Tinham vários ratos no sótão quando chegamos ali, mas agora eles silenciaram. Não tem mais "qüí-qüí-qüí" incessante pra te acordar de manhã, e já até temos o costume de ignorar as galinhas da vizinha quando botam ovos logo cedo.
Quero mais, mas eu gosto.
January 6, 2009
Ao contrário do provável, não, eu não vou enjoar, nem me cansar, nem desejar que desapareça. Existem sutis diferenças entre brisas quentes e ondas de calor: as primeiras são perfeitamente mundanas, podem ser aquelas impressões que sentimos ao ver uma cena da janela do ônibus, ou um sentimento raivoso por algum desentendimento - quem sabe, até uma pequena contemplação da beleza alheia, seja em quem for. Mas acabam rápido, deixando aquela pequena sensação de falso conforto.
Ondas de calor são coisas inabaláveis. "Como o mar, que sempre retorna", elas não te afogam nem te deixam congelar - são perfeitamente como dizem ser: sempre presentes, sempre necessárias, sempre belas, em seus contornos azuis com leves traços dourados e eventualmente, peixes de olhos grandes.
Nenhuma das duas podem ser descartadas, apesar de eu constantemente evitar qualquer sensação de conforto neste mundo. Por que? Simples: ele não existe. Uma alma inquieta será, eternamente, inquieta, e qualquer que seja a saída [nem precisa ser essa porcariada burguesa que nós fazemos uso] irá apenas retardar o efeito.
Que efeito? Respondam vocês.
December 4, 2008
Ainda que preso, machucado ou fraco, o coração canta.
November 11, 2008
E quantas vezes eu não rabisquei paredes, corri em círculos, ferí-me aos poucos, em silêncio, e segurei tuas mãos, só para que olhasse para mim?
Na verdade, é bastante súbito, se for pensar bem. É um aperto de repente, um estalo, ou até aquela dor de quando dormimos mal e viramos o pescoço de mal jeito, que repuxa tudo, dói e do nada, tão rápida quanto veio, passa.
E aí a gente se apega. E apega, cada vez mais no lado de dentro, as coisas rodopiam em espirais intermináveis. Borboletas, sim, talvez, mas na maior parte do tempo, são apenas luzes e cores diversas, como num prisma, ou num cristal quando bate o sol - mas será que isso não é a mesma coisa? Se bem que eu prefiro diamantes: indestrutíveis.
Mas é uma revolução tão silenciosa. Vibrante, como as freqüências gravíssimas, que a gente não ouve, mas que mexem com tudo. Silenciosa, discreta, mas tão minha, tão… deliciosamente minha. Ou, melhor dizendo: meu, porque é um coração. Um coração só.
October 17, 2008
Fico me perguntando. De repente, paro.
Cedo ou tarde, volto a me perguntar. É um vício incessante.
Será que eu sou a única a reparar o quão similares são gravatas e coleiras?
October 7, 2008
É bem verdade que eu estou sempre atrasada. As pessoas já sabem disso, já contam com o meu atraso. O lance é que, quando isso passa de horários concretos pra tua vida como um todo, não tem como o resto do mundo perceber, quem dirá entender, e até explicar… nossa.
Interessante, "garoa" é um anagrama de "agora." Será que me atrasei para escrever as letras e formar a palavra também?
October 6, 2008
Diferentemente dos dias de sol, a claridade dos dias nublados é muito mais insuportável. Há quem acredite que sejam mais escuros que os ensolarados, e talvez sejam, mas o pouco de luz que aparece já é suficiente para irritar: luz branca, chapada, tudo fica tão estourado quanto uma foto preta-e-branca com um flash mal usado.
Dá a desagradável impressão de que tudo existe sem contraste - e talvez este tipo de dia seja o mais real de todos.
A luz vem de todos os lugares - e cega.
October 2, 2008
E parece que não sou só eu: nenhum avião caiu, mas todos estão pessimistas!
Retratos antgos sobre o chão de mármore, o reflexo se perde, velho, enrugado, em meio a restos do passado.
Teu temor, tão sombrio é mais antigo que nós, é mais forte que nós e mais bonito.
Amarelo, cinza, azul. Não existe vermelho na solidão. É conhecida e ordinária - mas qual o problema com as cores frias?
September 23, 2008
Sentada nos jardins da faculdade, ela tinha olhos de melancolia. Com seus pensamentos vagando, reparou que se sentava no mesmo banco desde que entrara, três anos atrás, mas sempre sozinha. Nunca sentava ali acompanhada - era uma das várias tentativas de preservar-se. Arrumou toscamente os cabelos e se encolheu ao vento frio, continuando com o semblante melancólico; os óculos de sol não disfarçaram muito, mas ao menos ajudaram na parte da luminosidade.
Estava ensolarado. Não dava nem para argumentar que a culpa era dos dias cinza. Estava sol e ventava muito, e, estranho, só tinha coisas boas a lembrar de vento, e de sol, mas continuava ali, a fitar as pedrinhas redondas do chão ou o balanço das árvores. Se não estivesse tão frio, ao menos estaria se sentindo mais confortável.
Deitou-se, gelando as costas no banco de concreto. Ela sabia que a mandariam levantar em breve, mas resolveu aproveitar os poucos momentos que tinha ali. Não entendia o motivo de sua melancolia, muito menos se deveria, e foi em meio a esses pensamentos que adormeceu. Sonhou com a cidade natal e com o que estava a lhe esperar lá. Sonho de saudade, pensou logo ao acordar, e ficou contente que seus primeiros dez segundos pós-sono tenham sido povoados por boas lembranças, e daquelas que mais estimava nos últimos tempos.
Porém, logo voltou à fria realidade da capital; com todo o ar de fracasso que se arrastava por entre as plantas e povoava sua mente. Como era orgulhosa, como relutava em admitir que nem tudo estava a seu alcance. Sentia-se como Narciso, quando, na verdade, desejava Ícaro.
September 22, 2008
- Ah, meu! Não tem mais o que estudar pra essa porra!
- Eu também acho.
- Então, chega!
- Isso!
[Ambas se largam nas almofadas.]
September 21, 2008
Não sei, pensando agora, se as nossas lembranças eram muito coloridas, ou se a tal praça das pedras brancas era realmente mais viva quando nos sentávamos ali quase todo dia.
Mas hoje, agora que sou a única a caminhar por ali, ela definha: o mato cresce, as pedras estão sujas e as árvores todas bastante secas. Talvez seja o tempo frio, mas talvez seja a ausência dos nossos pés.
É. Às vezes me dá uma saudade brutal de vocês.
September 11, 2008
Tenho me sentido bastante como este novo apartamento.
Só minha, mas ainda faltando onde guardar minhas roupas, sem espelho e sem um lugar confortável para descansar e ler um livro, ou fumar um cigarro.
Evidentemente que eu não vou acordar no horário da aula de Gestão de Recursos Humanos amanhã.
Estava assistindo um filme domingo, no cinema, chamado Linha de Passe. Aquele novo do Walter Salles, sabem? Então. O que eu peguei daquele filme foi, além da realidade nua e crua das classes não-elite do país, que essa vida que levamos não tem conclusão.
As coisas não saem como pensamos sair, não temos esse controle todo sobre o que queremos e o que pensamos e, menos ainda, sobre o que querem e pensam de nós. Sempre existe um fator que escapa ao nosso plano e que, certamente, vai agir.
A estabilidade é uma mentira, e sua propaganda é ilusória.
Podem chamar de pessimismo, sim, mas quem pensa que a ilusão e a mentira são conclusões, e por isso as consideram pessimistas, está redondamente enganado: encaro com otimismo porque, se tudo que se pensa vai sair fora do controle, existem zilhões de possibilidades.
Ad infinitum. Tudo em potência, nada em ato. Nunca.
August 25, 2008
No meio de tanto sabonete, água e azulejos, ela nunca se sentiu tão suja.
E fria.
August 24, 2008
"- Quer fumar? - ofereceu, mas sabia que era como se dissesse qualquer coisa feito “não se dilacere sem necessidade, meu bem, é madrugada alta, fuma e relaxa, estou aqui, pode falar”, estabelecendo as regras de um jogo onde não haveria vencedor nem vencido, apenas um gentil fracasso final compactuado e compartilhado amável por ambas as partes. Absolutamente secretos no meio do quarto, no meio do edifício, no meio da cidade, no meio do país, no meio do continente, do hemisfério, do planeta. No centro da imensa noite do universo. Eternamente, ela arrepiou-se."
August 21, 2008
Sobre a injusta acusação à qual o rapaz era sujeitado - em pleno horário de almoço -, o promotor exclamava a seu favor: "é uma castração, uma castração! A garota é que não tem expressão da posição feminina e inveja a potência fálica! Foi uma castração!"
Dito isto, os jurados começaram suas deliberações:
"Do ponto de vista neurótico", diziam os da esquerda, "o sintoma era um ato falho auditivo; estava tão envolvida naquela ferida narcísica e seu respectivo recalque que o conteúdo saiu da boca alheia e mexeu no que estava quieto. A ré não é de todo inocente, mas foi seu inconsciente!"
"Do ponto de vista psicótico", afirmavam os conservadores, aos berros, "era apenas uma alucinação auditiva, praticamente inofensiva."
Ao centro, em pensamento, a condenada exclamava: "mas eu sou borderline, eu sou borderline! E agora?"
|